Sobre vacinas e delírios

A gestão do governo brasileiro ante a pandemia do coronavírus e sua vacinação é qualquer coisa entre uma tragédia de Dante e uma distopia de Huxley

As vacinas para o coronavírus chegaram na Espanha. Produzidas na Bélgica, desenvolvidas por um duo de laboratórios estadunidense e alemão e entregues por empresa logística da França – numa típica Disneylândia como a cantada pelos Titãs.

As primeiras vacinadas, uma senhora residente em um centro de idosos com 96 anos e uma trabalhadora do mesmo local. Durante o recebimento dos lotes causou certo rebuliço no país os imensos adesivos com o slogan do Gobierno de España em cada palete que ia sendo acomodado nos enormes galpões em Guadalajara. A oposição acusou o governo de propaganda indevida.  

Para além de querelas entre PSOE e PP, atenho-me ao fato de um governo ser acusado de utilizar a chegada da vacina como algo positivo à sua imagem. Feito que em terras tupiniquins, seria reverso. A chegada da vacina representou à União Européia um sopro de alento a um ano repleto de dificuldades; ao menos a sensação, ainda que sem certezas, de uma perspectiva de fim à pandemia e retorno às atividades cotidianas normais. Além, esperança a milhões de famílias em poder reencontrar entes queridos e enfim poder distribuir Los abrazos prohibidostítulo da canção composta pela banda madrilenha Vetusta Morla durante o confinamento.

No Brasil, incrivelmente, não. Imagino lotes de vacina chegando e o governo federal tentando escondê-lo – quando não tentando impedir a entrega. Ou quiçá, numa espécie de contrapropaganda, colocando estrelas vermelhas para dizer que a vacina é perigosa. Uns tomam cloroquina, outros tubaína. Enquanto o mundo vislumbra uma solução, no país da Fiocruz e do Butantã ser vacinado significa virar jacaré. Não basta ir contra quaisquer protocolos que almejam reduzir os contágios; é um dever cívico ir contra eles. Sim, cívico para um governo que coloca o “Brasil acima de tudo” na mesma medida que joga os brasileiros debaixo da terra. Os 215 mil túmulos abertos única e exclusivamente por conta da negligência no enfrentamento da covid não serão esquecidos.

Têm, sim, que sua responsabilidade seja cobrada ante o pseudonacionalista que sorri e faz piada enquanto seus compatriotas morrem diariamente. Que general ou comandante aceitaria tal ato? Se bem me lembro do Guia dos Curiosos (livro do curioso jornalista Marcelo Duarte) a pena de morte ainda existe no país, caso em tempos de guerra sejam cometidos deserção ou traição. Oras, abandonar o próprio povo à sua sorte ou azar, na maioria das vezes azar, cometendo um genocídio por negligência, incompetência e, principalmente, com total discernimento disso, o que é?

É clara a 10ª edição do boletim Direitos na Pandemia – Mapeamento e Análise das Normas Jurídicas de Resposta à Covid-19 no Brasil, do Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da Faculdade de Saúde Pública da USP e Conectas Direitos Humanos: “Ao afastar a tese de incompetência ou negligência do governo federal, o estudo revela a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo governo federal sob a liderança do Presidente da República”.

Distanciamento social, usar máscara… não serve de nada. Até o Le Figaro destinou suas páginas a comentar o comportamento do pseudopresidente como único entre as democracias mundiais. O que sim serve é aglomerar, churrasco e pescaria com os parças. E xingar jornalistas, para não perder o costume – afinal a culpa desse pandemônio é sempre da imprensa, que assusta a população de forma exagerada. Informação com credibilidade, basta procurar a agência de comunicações informal que funcionava no Planalto sob criteriosa supervisão do 02. Ou seria o 01, ou 03, nem sei mais. Ou a responsável pela “lista dos detratores”, cujo contrato de mais de dois milhões é bastante bem aplicado copiando cabeceiras da Wikipédia.  

Ainda que não obrigatória, a intenção é até o próximo verão europeu ter a maioria da população vacinada. Nesse sentido o esforço em conscientizar as pessoas. Quando o maior país da América Latina terá possibilidade de oferecer vacina a toda sua população, de forma eficiente e organizada, através do combalido SUS? Claro, além da vacina precisamos de seringas, de leitos, e pasmem, de oxigênio, para que nosso povo possa respirar – em todos os sentidos. Note-se aliás a importância de um sistema público de saúde, cada vez mais valorado e defendido pelo atual executivo espanhol. Nesse balaio podemos incluir educação, moradia, necessidades básicas a qualquer ser humano.

No Brasil de hoje, não, como demonstra o raciocínio de que os laboratórios deveriam procurar o país por ser um enorme mercado. Com o atual encarregado da pasta da Fazenda, não. Importante mesmo é preservar a PEC do teto de gastos e dilapidar o patrimônio nacional. Na doutrina do choque O predador neoliberal Faz a festa Do deus mercado e capital desregularizado / Abrindo espaço para o Chicago boy Privatizar todas estatais Favorecer os ricos às custas dos pobres Eliminar programas sociais como na música do Dead Fish. Ah fosse apenas uma distopia de Rodrigo Lima.

No Brasil o que poderia ser um pesadelo é materializado a cada dia que esse governo hipócrita, beócio, incompetente e pérfido segue no poder. Permanecemos na contramão do mundo, assistindo a outrora sexta economia mundial – potencial para isto e muito mais pelo que possui e produz – visto com bons olhos nos cinco continentes; virar uma pária, motivo de vergonha com uma figura abjeta e meia dúzia de lacaios, somado a ministros indecorosos e de constantes desvarios e uma diplomacia torpe, ocupando o mais alto cargo da república.  

Escreveu o deputado catalão Gabriel Rufián, no livro “El 15M Facha”; sem embargo adequa-se perfeitamente à terra brasilis: Nuestros mayores enemigos no serán el virus y la miseria que vendrán, nuestros mayores enemigos serán la codicia, el odio y la indiferencia que vendrá. Y la codicia, el odio y la indiferencia metabolizados tienen nombre: fascismo.

A perversa lógica desse (des)governo é perfeitamente ilustrada com ufanismo tosco, igrejas tresloucadas, “arminha com a mão”, emas, país de maricas, “ameaça-comunista-ideológica-cultural-doutrinadora” gripezinha, milícias, laranjais, terraplanismo, mamadeira de piroca, cheques de 89 mil, generais anacrônicos e toda podridão mais que há… Um beco escuro de seitas sem nome, paixão, insônia, doença, liberdade vigiada como dito pelos Paralamas do Sucesso, no qual nada levanta aqueles 200 mil corpos jogados pela covid-19. É o que nos resta.

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