Uma entrevista na Espanha que vale para o Brasil

Coletiva concedida pelos porta-vozes do Podemos, Isa Serra e Pablo Fernández, tocou temas latentes na Espanha e sem embargo bastante confluentes coa realidade brasileira.

Brasil e Espanha possuem muito em comum. Quiçá muito mais do que brasileiros e espanhóis imaginem. E a maneira como determinados temas políticos são tratados ilustra quão fundo é o poço no qual o país sul-americano segue afogado. Isa Serra iniciou sua intervenção lembrando o assassinato de Samuel Luiz Nuñez, jovem nascido no Brasil, espancado e assassinado no último final de semana a gritos de “maricón”, em La Coruña. Algo que aconteceu na Galicia, não obstante dura e cruel realidade também em solo brasileiro – com o agravante de ali o próprio governo ser homófobo e racista (cujo pseudopresidente diz “prefiro um filho morto do que gay”). Um crime hediondo que caberia apenas em uma realidade de “laranja mecânica”; um sujeito que estando com uma dúzia de comparsas espanca outra pessoa sozinha até a morte.

Pablo Fernández, ao comentar o sistema de aposentadorias, destacou o acordo do sistema de pensiones que protege os aposentados e valoriza a retribuição de acordo com o IPC. O que lembra que num não tão distante passado, em um distante país, o salário mínimo era reajustado de acordo com a inflação. A importância do Estado e das contribuições em um sistema público contrasta com as reformas aprovadas pelo legislativo em Brasília, verdadeira aberração que praticamente obriga o cidadão comum a trabalhar até o último dia de sua vida

Pablo Fernández, de León, é também coordenador geral do Podemos em Castela e Leão.

Não passa em branco a aprovação, por parte de 130 países da OCDE, de um imposto sobre empresas mínimo de 15%. Parêntesis: entre os nove que não assinaram estão Irlanda, cuja tributação é metade da corrente na maioria dos países europeus; e Estônia, que ficou famosa através de Ciro Gomes no pleito de 2018 por não tributar lucros e dividendos. Fernández igualmente salientou o momento de políticas expansivas por parte da União Europeia. Algo que somente o ministro chicago boy não vê, fazendo hercúleo esforço contra qualquer auxílio emergencial e executando as políticas cujo único objetivo é dilapidar o patrimônio nacional. Uma verdadeira doação de estatais que, apesar de defendidas por uns que se dizem novo não passam de velhas práticas ultrapassadas da doutrina do choque

Justiça: desigual para todos

Isa foi questionada por uma sentença à qual foi condenada por conta de uma desocupação ocorrida em 2014, acusada de desacato e atirar objetos contra policiais. Ela não aparece em nenhum vídeo ou foto cometendo tais atos; por outro lado sua defesa apresentou mais de 200 registros onde simplesmente está presente na manifestação, não cometendo quaisquer delitos. Não serviu de nada. 

A imparcialidade da magistratura não é novidade no Brasil, basta recordar que um candidato foi impedido de concorrer às presidenciais por conta de uma sentença que, mesmo sem pé nem cabeça, convenceu um país inteiro que presunção de inocência é alvará para salvar corruptos. Sentença essa proferida por um juiz cuja imparcialidade foi reconhecida três anos depois pelo STF. Ora, realmente era necessário todo esse tempo? Não era à luz dos fatos perceptível que encarcerar uma pessoa não com provas, mas por convicção, era algo aceitável? Ou abandonar a “república de Curitiba” para virar superministro, cheira bem? 

Quiçá sim, ao menos para as vergonhosas togas do TR4 e tantas outras que se não compactuam se omitem por trás de capas negras para trabalhar não em nome da justiça e da equidade, mas dos espúrios interesses de sua privilegiada casta. São os mesmos que perpetuam a profunda desigualdade cada vez mais latente no Brasil dos 520 mil mortos pela covid. Mas isso não importa: o objetivo de acabar com pretos nas universidades, empregadas viajando de avião ou que jovens da periferia e do Leblon tenham oportunidades equivalentes foi alcançado. 

Ah, a imprensa, não poderia ficar de fora

Isa Serra, ex-deputada e nº2 na lista morada do 4M

Pablo Fernández recordou que antes mesmo da própria condenada ter acesso à sentença, o informe foi vazado ao jornalista Eduardo Inda. Não se sabe quem passou a informação ao diretor do Ok Diario, porém no Brasil sabe-se muito bem quem tornou públicas as conversas telefônicas entre uma presidente e um ex-presidente, gravadas fora do horário aos quais havia autorização. Da mesma maneira, dedicava infinitos minutos ao suposto esquema da Lava-Jato, tão meticulosamente engendrado quanto a “pedalada” que tomou conta dos jornais e televisões até o impeachment de Dilma Rousseff. Outra vez fica latente o conluio velado entre grandes meios, que usam e deturpam conceitos de liberdade de expressão ou censura para proteger seus próprios interesses, e determinados agentes políticos. 

Curiosamente não houve qualquer tipo de reproches ao deputado que, naquele patético e deplorável espetáculo, em plena câmara que (deveria) representar a democracia, ante uma presa política que sofreu tortura e passou por violências as quais suponho pessoas normais sequer conseguem imaginar, exaltou um dos mais conhecidos torturadores da sanguinária e assassina ditadura militar brasileira

Brasil

A coletiva aconteceu dias depois das manifestações do 3J em todo país, também em Madri e Barcelona. Perguntados, Pablo comenta que é um horror o que passa no país, basta observar o número de óbitos e a irresponsabilidade do governo. E para os que alardeiam o perigo das “ditaduras comunistas”, destaco a maneira como refere-se ao futuro do país, que o atual titular do Planalto seja desalojado democraticamente.    

Comento que há alguns anos sua figura não passava de um escracho do que de mais tosco há na política brasileira, e hoje está onde está. Isa lembra de outros nomes, como Trump, e os espaços que os extremismos tutelados por Steve Bannon galgam. Todavia, menciona a resposta, aqui na Espanha, conseguida através das urnas; além do próprio governo de coalizão formado por Psoe e Unidas Podemos, mas com a maioria parlamentar que conta com apoio de distintos grupos. 

Algo que muitos políticos e partidos no Brasil deveriam dedicar um pouco mais de atenção: por pior que seja o atual executivo, nenhum pleito está ganho antes da apuração

Coletiva aconteceu na sede do partido, em Pueblo Nuevo.

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