A reforma ministerial de Pedro Sánchez

Transcorrida meia legislatura, o presidente do governo promove a primeira grande mudança – que não toca somente sua equipe, mas também o futuro do PSOE.

Mudar para permanecer o mesmo, conceito que Tomasi di Lampedusa abarca em O Leopardo, obra posteriormente levada ao cinema por Luchino Visconti. Quiçá algo parecido tenha empreendido Pedro Sánchez Castejón no equinócio da atual legislatura. São sete câmbios que, por um lado, visam ratificar o programa do governo de coalizão e referendado por ampla maioria do congresso espanhol. Mas, por outro lado, também implica a saída de nomes que acumulavam desgaste por distintos motivos. 

As trocas aconteceram nas seguintes pastas: 

  • Presidencia, Relaciones con las Cortes y Memoria Democrática: sai Carmen Calvo; entra Félix Bolaños.
  • Justiça: sai Juan Carlos Campo; entra Pilar Llop
  • Transportes, Mobilidade e Agenda Urbana: sai José Luis Ábalos; entra Raquel Sánchez
  • Política Territorial: sai Miquel Iceta; entra Isabel Rodríguez
  • Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação: sai Arancha González Laya; entra José Manuel Albares
  • Educação e Formação Profissional: sai Isabel Celaá; entra Pilar Alegría
  • Cultura e Esporte: sai José Manuel Rodríguez Uribes; entra Miquel Iceta
  • Ciência e Inovação: sai Pedro Duque, entra Diana Morant
  • Chefe de gabinete da Presidência do Governo: sai Iván Redondo, entra Óscar López

Antes, apenas duas trocas, e por conta de eleições autonômicas: Salvador Illa deixou a Saúde para concorrer à Generalitat da Catalunha e Pablo Iglesias abriu mão de Direitos Sociais e Agenda 2030 para tentar quitar Isabel Díaz Ayuso da Comunidad de Madri

Da lista, três nomes merecem destaque: Calvo, Ábalos e Redondo. Carmen Calvo, de pulso firme, também ocupava a vice-presidência primeira e protagonizava embates duros durante as sessões de controle, principalmente coa porta voz do Partido Popular, Cuca Gamarra. Internamente, divergências em temas como as leis trans e solo sí es sí, coa parte morada do governo e setores feministas do seu próprio partido. Félix Bolaños, de perfil reservado, ocupava a secretaria geral da presidência do governo. Ajudou a desenhar a estrutura de governo logo após o sucesso da moção de censura. 

Carmen Calvo participou igualmente de outro episódio cujo desgaste percorreu o país, os indultos aos presos catalães. Nesse, todavia, o protagonismo era de Juan Carlos Campo, titular na pasta da Justiça. Outro de saída, defendeu a medida de graça mesmo ante o parecer negativo do Tribunal Supremo, e “deu a cara” em inúmeras sessões no Congreso de los Diputados. Sua substituta, Pilar Llop – não filiada ao PSOE –  é especialista em violência de gênero e presidia o Senado espanhol.   

José Luis Ábalos deixa sua pasta sem consenso com Unidas Podemos para aprovação de uma lei de moradias, cuja limitação no preço dos aluguéis era vista sob diferentes perspectivas por ambos lados. Marcou também o encontro com Delcy Rodríguez, vice presidenta da Venezuela, no aeroporto de Barajas, que rendeu manchetes aos jornais. Raquel Sánchez vem do Partido Socialista da Catalunha, e dirigia o município de Gavá. A jovem Isabel Rodríguez acumulará Política Territorial com a função de porta-voz do governo; com isso María Jesús Montero passa a dedicar-se apenas à Fazenda. 

Isabel Celaá deixa a educação com sua medida mais polêmica aprovada, a Lomloe – aqui conhecida como “lei Celaá”- que gerou inúmeros atritos com centros privados e de educação especial. Pilar Alegría é docente e deixa a delegação do governo em Aragão. Arancha González Laya sofreu duras críticas pela crise com o governo marroquino, decorrente da entrada do líder da Frente Polisário para tratamento médico na Espanha. O que desencadeou o “relaxamento” de Marrocos na fronteira com Ceuta, quando 8000 pessoas cruzaram a divisa entre países. José Manuel Albares era embaixador da Espanha em Paris.  

Iván Redondo é o grande estrategista das campanhas de Sánchez, considerado mentor da moção de censura que levou pela primeira vez o socialista a chefiar o executivo. Foi o próprio que pediu – ao menos essa é a versão oficial – para deixar o cargo: en la política, como en la vida, hay que saber parar escreveu em um bilhete. Sem embargo, escutei de um jornalista com bom trânsito político: “ninguém que está no poder quer deixá-lo”.

Assessor independente, anteriormente havia trabalhado com políticos do PP, que não agradava parte dos socialistas. Não obstante, tinha total confiança e era uma das pessoas mais próximas ao presidente. Seu substituto, ao revés, é um socialista “de carteirinha”: Óscar López foi secretário geral e secretário de organização do PSOE. Próximo a Alfredo Pérez Rubalcaba e do próprio Sánchez, com quem os vaivéns da vida política afastaram e agora voltam a acercar. 

O presidente do governo espanhol Pedro Sánchez Castejón

Renovación generacional para impulsar el crecimiento

O chefe do executivo espanhol destacou o perfil feminino e rejuvenescido da nova equipe – a qual caberá coordenar os fundos de recuperação da crise do coronavírus que chegarão à península. O número de pastas se mantém em 22, 14 comandadas por ministras mulheres e oito por ministros homens. Já a média etária decresce de 55 para 50 anos. É também uma aproximação a figuras com mais peso em âmbito municipal, com três prefeitas (nenhuma de capital de província) e uma delegada de governo. Manobra importante tendo à mirada as próximas generales. Nomes mais próximos à cidadania podem ajudar o PSOE a recuperar espaço quando pesquisas apontam que os Populares ganham terreno a cada dia. 

Na parte morada, Unidas Podemos segue com as mesmas cinco carteiras. Em decorrência da saída de Carmen Calvo, vice-presidenta primeira, as outras três “sobem” uma posição. Nadia Calviño, Yolanda Díaz e Teresa Ribera são agora 1a 2a e 3a. As galegas Calviño (Assuntos Econômicos e Transformação Digital) e Díaz (Trabalho e Economia Social) tem papel reforçado no novo executivo e na recuperação do país. Contam com bom trânsito em distintos setores, tanto sindicatos quanto patronais e empresariado, e já chegaram a inúmeros acordos. Não obstante, ideologicamente levam posições distintas em questões profundas, como derrubar a reforma trabalhista ou aumento do salário mínimo.  

José Luis Ábalos abandona igualmente a secretaria de organização do Partido Socialista. Adriana Lastra, líder do grupo parlamentario, dará as coordenadas dentro do partido até outubro, quando acontece o próximo congresso federal dos socialistas, ao lado de Santos Cerdán, secretario Ejecutivo de Coordinación Territorial, que assume interinamente a organização.  

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