Após um mês e meio entre campanha e pré-campanha, Madri chega à véspera de uma eleição tão imprevisível quanto única. No 2 de maio, dia desta autonomia, os partidos realizaram seus últimos atos na capital espanhola.
Em 2 de maio de 1808 a população de Madri levantou-se contra os franceses que então ocupavam a cidade, durante a regência de Napoleão. A insurreição popular foi reprimida e retratada por Francisco de Goya nas telas El 2 de Mayo e El 3 de Mayo en Madrid.
Em 2 de maio de 2021 não houve levantes contra franceses (pelo contrário, eles continuam desfrutando bares abertos por malasaña ou letras enquanto seu país mantém restrições por conta do coronavírus). Todavia, seis “levantes” ocuparam distintos pontos da cidade, quase simultaneamente, no último dia de campanha para as eleições de 4 de maio. Os candidatos de PP, PSOE, Más Madrid, Ciudadanos, Podemos e Vox realizaram atos de fechamento de campanha, falando para a militância e aproveitando a última chance de angariar o voto de indecisos ou abstencionistas.
Muito da tônica dessa rara jornada eleitoral foi repetida nesses atos, como o entendimento de que eleger o próximo presidente da Comunidade de Madri terá ligação direta coas próximas generales. Presidentes nacionais de todos os partidos participaram dos mítins – o que aliás aconteceu em menor ou maior proporção durante toda a campanha. Enquanto Íñigo Errejón pouco aparecia nos eventos do Más Madrid, que tinha em Mónica García a candidata menos conhecida, Rocío Monasterio não subia em nenhum palanque do Vox desacompanhada de Santiago Abascal.
Por outro lado Pedro Sánchez Castejón e Pablo Casado Blanco, presidente do governo e líder da oposição na Espanha, trouxeram para o nível autonômico suas discrepâncias, com um olho em 21 e outro em 23. Há uma enorme diferença, porém: enquanto o candidato socialista Ángel Gabilondo é um acadêmico centrado e de pouco tato político, atual presidenta Isabel Díaz Ayuso tem personalidade forte, é adorada por seu eleitorado e pode, inclusive, ser um entrevero à Casado na liderança nacional do Partido Popular em alguns anos.
Pablo Iglesias Turrión deixou um ministério e uma vice-presidência para salvar seu partido de não entrar no parlamento autonômico. É o nome mais forte que o Podemos poderia lançar, surpreendendo o país com seu anúncio. Mesmo risco, este muito mais próximo de virar realidade, é o caso de Ciudadanos, que dificilmente ultrapassará a barreira dos 5% de votos. Mesmo assim Inés Arrimadas implicou-se a tope na campanha do deputado no congresso espanhol Edmundo Bal, tentando salvar seu partido da extinção.

Edmundo Bal (Cs), Pablo Iglesias (Pod) e Rocío Monasterio (Vox)
Reflexión
Jornada de reflexión. Assim os espanhóis chamam dia que antecede as eleições. Proibido qualquer tipo de campanha ou propaganda eleitoral: é o dia no qual a cidadania deve refletir sobre o que cada partido apresentou para decidir o voto. No total 23 listas foram registradas na Junta Eleitoral Provincial de Madri – das quais apenas seis possuem atualmente representação parlamentária.
À raiz dos debates (único com todos os candidatos na Telemadrid e papelão visto na Cadena Ser), incidente no lançamento de campanha do Vox em Vallecas e cartas com balas e ameaças de morte a candidatos, o pleito foi paulatinamente passando “de seis para dois” concorrentes. Utilizando uma nomenclatura que pessoalmente não me agrada, a eleição virou esquerda x direita. Em um sistema no qual ganhar não significa governar, efetivamente o que decidirá o próximo governo é a soma dos blocos.
A próxima legislatura marca um câmbio na Asemblea de Madrid (além de durar apenas dois anos, a metade que falta para terminar a atual): passará a ter 136 deputados frente aos 132 atuais, fruto do aumento da população no último censo. Assim a maioria absoluta passa de 67 para 69 assentos, o que torna praticamente impossível um governo em solitário – algo que a candidata do PP frequentemente aspirou durante seus comícios, dizendo-se refém de Cs e Vox.

Nas últimas eleições, dois anos atrás, o Partido Socialista foi o mais votado, elegendo 37 deputados. Isso não foi sufuciente, contudo, para encerrar os 26 anos de governos dos Populares: Ciudadanos, pretensamente um partido de centro, preferiu pactar com PP e ter apoio externo do ultra-reacionário Vox a somar com socialistas e MM, formando um governo sem a necessidade do “radical” Podemos. A maioria absoluta deu-se por um voto: 68 “sims” de PP+Cs+Vox contra 64 “nãos” de PSOE+MM+Pod.
No atual cenário o desaparecimento da formação laranja é compensado com o subidón que Díaz Ayuso deve conseguir. O El País fez uma média baseada em dezenas de pesquisas realizadas ao longo da campanha, na qual PP teria uns 59 assentos. Só conseguiria governar com o apoio do Vox, algo que possivelmente não fará a troco de nada – pelo contrário, com sério risco de integrar o executivo. Más Madrid cresce, entretanto sobre o Partido Socialista, o que não favorece o bloco progressista. E o quiçá mais curioso: sendo uma câmara par, pode haver um “empate técnico” se cada bloco obter 68 escaños. Algo que salvo algum arranjo deveras inusitado levaria a novas eleições. Que surpresas e que resultados sairão das urnas, só na noite do 4M.
Democracia, sempre democracia, este deve ser o grande foco de todo pais que deseja ser grande. A liberdade e a autonomia da população em geral associada a uma boa educação, só pode trazer bons frutos. Porém até mesmo na democracia devemos ter limites individuais e coletivos.
Aproveitei e depois de ler o seu artigo, fiz mais algumas pesquisas para conhecer um pouco mais da historia contemporânea e passada de Madri.
Abraço e sucesso. Tulio.
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É isso aí Tulio, muito obrigado.
Olha, acho que não tem um dia que não descubro algo sobre Madri, ô cidade interessante.
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